Quando todas as marcas criam experiências, o que realmente fica na memória?

O Rock in Rio começou, e basta olhar para a quantidade de marcas presentes para perceber uma mudança que já vinha se consolidando há algum tempo: as empresas não querem mais apenas aparecer. Querem ser vividas.

Nesta edição, o festival reúne mais de 90 marcas, mais de 100 ativações, cerca de 8 mil horas de experiências e aproximadamente 1 milhão de brindes distribuídos ao longo dos sete dias. É muita coisa disputando atenção ao mesmo tempo. E justamente por isso surge uma pergunta interessante: quando todas as marcas oferecem uma experiência, o que realmente fica na memória?

Durante muito tempo, patrocinar um grande evento significava principalmente garantir visibilidade. Logo no palco, nome em algum espaço, produto distribuído, presença na comunicação. Hoje, isso parece pouco. As empresas criam estandes imersivos, festas, ambientes para descanso, ativações tecnológicas, experiências VIP, brindes colecionáveis e espaços pensados para virar foto, vídeo e postagem.

No Rock in Rio 2026, por exemplo, o Itaú celebra 25 anos de parceria com o festival com um pavilhão de 1.000 metros quadrados, três andares, pista de dança, rooftop e benefícios para clientes. Não estamos mais falando apenas de exposição. Estamos falando de marcas tentando participar da memória de um momento.

Mas existe uma diferença importante entre criar uma boa experiência e construir uma boa lembrança de marca.

Uma pessoa pode sair de uma ativação dizendo que foi incrível, guardar o brinde, postar a foto e contar a história para os amigos. Ainda assim, alguns dias depois, talvez não consiga lembrar qual empresa estava por trás daquela experiência. Quando isso acontece, a ação funcionou como entretenimento. Não necessariamente como construção de marca.

É aí que a estratégia entra.

Existe uma diferença entre gerar lembrança e gerar associação. A primeira faz alguém lembrar do que viveu. A segunda faz alguém lembrar quem proporcionou aquilo e por que aquela experiência fazia sentido para aquela marca.

Essa distinção parece pequena, mas muda tudo.

Porque o marketing de experiência também entrou em uma corrida pelo espetáculo. Quanto maior a estrutura, mais instagramável o cenário e mais raro o brinde, maior parece ser a chance de chamar atenção. Só que memória não funciona apenas por intensidade. Funciona também por significado.

Às vezes, uma experiência simples, mas profundamente coerente com aquilo que a marca representa, deixa uma associação mais forte do que uma instalação enorme que poderia pertencer a qualquer empresa.

Por isso, antes de perguntar “o que podemos criar?”, talvez a pergunta mais importante seja: o que queremos que as pessoas associem ao nosso nome depois de viver isso?

Se essa resposta não estiver clara, a ativação corre o risco de ser interessante e esquecível ao mesmo tempo.

Uma marca forte não precisa apenas surpreender. Precisa ser reconhecível. A experiência deve parecer uma extensão daquilo que ela já comunica, entrega e representa.

Se uma empresa constrói seu posicionamento em torno de conveniência, faz sentido criar algo que realmente facilite a vida do público. Se fala de pertencimento, precisa criar espaço para conexão. Se promete inovação, a tecnologia usada na experiência precisa resolver alguma coisa, não apenas parecer moderna. Se fala de sustentabilidade, essa promessa precisa aparecer também na operação.

É assim que a experiência deixa de ser uma ação isolada e passa a reforçar reputação.

Eventos como o Rock in Rio criam um ambiente perfeito para atenção. Existe emoção, música, desejo, pertencimento e uma predisposição enorme para compartilhar o que está acontecendo. Mas atenção emprestada pelo evento não é automaticamente patrimônio da marca.

O verdadeiro desafio começa depois da foto.

A pessoa passa a perceber aquela empresa de maneira diferente? Procura a marca depois? Consegue explicar por que ela estava ali? A experiência reforçou algo que já existia na percepção do público ou criou uma nova associação?

Essas perguntas importam porque nem tudo o que gera fila gera valor de marca. Nem tudo o que viraliza constrói reputação. Nem todo brinde cria vínculo.

O Rock in Rio de 2026 mostra como o marketing de experiência amadureceu. Há mais marcas, mais formatos, mais tecnologia e mais possibilidades de interação. Mas também revela um paradoxo: quanto mais experiências existem, maior é a disputa para que alguma delas seja realmente lembrada.

Talvez o próximo estágio do marketing de experiência não seja criar algo cada vez maior. Talvez seja criar algo cada vez mais próprio.

Algo que o público não consiga imaginar sendo feito da mesma maneira por qualquer concorrente.

Porque, quando o cenário inteiro disputa atenção, ser visto deixa de ser suficiente.

A marca que permanece é aquela que consegue transformar um momento vivido em significado.

No fim, a pergunta não é apenas se as pessoas gostaram da experiência.

É se, quando lembrarem dela, lembrarão também de quem a criou.

Patricia Dalpra é Estrategista em personal branding e gerenciamento de carreira.

O trabalho que Patricia Dalpra desenvolve surgiu de uma vontade e de uma certeza: vontade de levar pessoas e empresas a crescer, alcançar seus objetivos de negócios e de imagem e se relacionar melhor com outras pessoas e empresas; e certeza de que um trabalho estruturado de gestão de imagem e carreira é um dos melhores caminhos para se chegar lá. Ao longo de mais de uma década, a Patricia Dalpra já trabalhou para centenas de profissionais, executivos, empresários, atletas, instituições e empresas.

Specialties: Gestão de imagem, gestão de carreira e coaching. Personal branding, branding executivo, brand on, brand off, estudo do dna pessoal e corporativo e comunicação.